I
Reclamava do peso dos abraços, da gordura
que ardia quando tentava levantá-la pelas costelas
com braços de menino. Não tão apertado,
ela dizia, o coração pode voar pela boca.
Não vi minha mãe morta.
Seu desaparecimento me faz imaginar
que está suspensa em meus músculos,
queimando a fiança dos ossos,
rindo do afeto exagerado.
Então fico sereno em saber que está enterrada
no ar.
Solta e desatada, seu coração
ainda pode ser um pássaro cantando.
II
Uma mãe sepulta não cabe na cabeça.
Ainda a penso nos pratos arranhados,
nas xícaras cor de terra, nos lençóis
por lavar, exalando sono e urina.
Minha cabeça varia entre a mesa posta e o varal,
esperando com prendedores de madeira
as laranjas apodrecerem com mais pressa
que as bananas.
Minha cabeça está muito verde para o jazigo.
É tão difícil dizer “minha mãe está morta”
e acreditar.
É tão duro um dia
ter que enterrar minha própria mãe
com a boca.
Ultrajes à mesa
À mesa da cozinha,
comer era devolver o prato à pureza.
Não devia ser áspero
com os talheres,
cortava a carne
sobre a carne
e não podia sangrar.
Eu era o furo na toalha,
a sombra dos cotovelos por cima.
Em minha infância
proibida,
ia para a mesa sempre de luto,
absorvendo na camisa
os feijões cansados de fervura.
Jantar era estar vestido
de louça.
comer era devolver o prato à pureza.
Não devia ser áspero
com os talheres,
cortava a carne
sobre a carne
e não podia sangrar.
Eu era o furo na toalha,
a sombra dos cotovelos por cima.
Em minha infância
proibida,
ia para a mesa sempre de luto,
absorvendo na camisa
os feijões cansados de fervura.
Jantar era estar vestido
de louça.
Galinhagens
sozinho no escuro do motel
escuto vozes de porta
enquanto mulheres na rinha
contam léguas de genitálias
seus galos saciados
viram deuses de crista murcha
ouço no viço da tábua
os vestígios da má educação
beijo de língua a fechadura
faço sexo de ouvido
escuto vozes de porta
enquanto mulheres na rinha
contam léguas de genitálias
seus galos saciados
viram deuses de crista murcha
ouço no viço da tábua
os vestígios da má educação
beijo de língua a fechadura
faço sexo de ouvido
Passado a sujo
Passei quase rasgando
a borracha nos cadernos,
queria deixar as coisas claras,
em estado de bocejo.
Estranhei a letra apressada
e sua ópera surda,
a borracha logo se esmigalhava
nas rugas do papel.
Distraído entre os borrões
do que foi escrito à tinta,
passo tudo a limpo,
mas não me deixo limpo.
a borracha nos cadernos,
queria deixar as coisas claras,
em estado de bocejo.
Estranhei a letra apressada
e sua ópera surda,
a borracha logo se esmigalhava
nas rugas do papel.
Distraído entre os borrões
do que foi escrito à tinta,
passo tudo a limpo,
mas não me deixo limpo.
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